A VIGIA
Aldeia serrana, com o frio a não permitir as culturas das
terras ribeirinhas, a Gente da Gralheira dedicou-se sempre mais à criação de gado, do
que ao cultivo da terra. As grandes extensões de pastagens na Serra de Montemuro, foram
sempre um convite à criação de gado ovino e caprino. Apenas cultivavam milho, centeio e
batatas e, mesmo assim, só em regime de subsistência. O gado era, e é, a sua principal
fonte de receita. Dantes, eram quase tantos os rebanhos na Serra, como de fogos
havia na povoação. Cada um guardava o seu rebanhito de vinte ou trinta cabeças, que se
não era todo de sua pertença, era também da família mais chegada. Pagava-se pela
guarda de cada cabeça, meio alqueire de milho ou centeio por ano. A serra cobria-se de rebanhos e pastores, quando a chuva e a
neve permitiam que subissem aos seus planaltos! Animava-se e tornava-se mais bela e alegre
com o cantar dos pastores e o balir das ovelhas! E nos sítios mais recônditos da serra,
podiam ver-se terreiros bem coçados do dançar de rapazes e raparigas, guardadores de
vacas e rebanhos! Era bonito! Era alegre! Era divertido! Mas todo esse encanto se perdeu na poeira dos anos. Os tempos
modernos não se compadecem nem se conciliam com esses encantos. A gente nova, atraída
por outros horizontes, emigrou e os pastores familiares acabaram. Agruparam todos os
pequenos rebanhos num só, a que chamam "vigia". Assim. é mais fácil o seu
pastoreio. Duas pessoas apenas guardam este rebanho comunitário, que dantes ocupava mais
de vinte. A escala é feita na proporção das cabeças de gado que cada um tem. Chegada a hora de sair para a pastagem, um dos pastores toca o
sino da Igreja, a cujo sinal todos obedecem, levando o seu gado até ao ponto de reunião,
que é na Eira do Adro. Aí se reúne todos os dias de manhã, grande assembleia, tanto de
pessoas, como de ovelhas e cabras. Depois de verificarem que não falta nenhum, partem
para o monte ao som de uma grande barulheira provocada por cerca de duzentas campaínhas e
chocalhos, que os animais trazem ao pescoço. Antes de partir, chamam os cães da
"vigia" para o almoço. Estes são diversos e pertencem a toda a comunidade. Mas
os mais valentes são o Jordão e o Mondego. Podem estar longe, mas ao ouvirem um assobio
ou chamarem pelos seus nomes, imediatamente se apresentam para o almoço e para
acompanharem o rebanho. São estes dois cães que têm a seu cargo a difícil tarefa de
defenderem os rebanhos dos lobos. E quanta vezes travam lutas directas com eles. A noite quando regressam do monte, o rebanho fracciona-se
automaticamente à entrada da povoação. Cada grupo, segue em direcção ao seu curral,
sem que seja preciso alguém a separá-los. Os proprietários apenas têm que lhe fechar a
porta da loja. Os cães fazem a visita diária a todas as casas. Se a porta
está fechada. primeiro batem. depois ladram até que alguém a abra e lhes deite qualquer
coisa para comer. Uma vez atendidos, seguem para a casa vizinha. Embora a "vida"
tenha cerca de trezentas cabeças, é um número muito inferior à soma dos pequenos
rebanhos de outrora, e se é certo que o rebanho comunitário ocupa menos pessoas, no seu
pastoreio, também é verdade que roubou à Serra todo o encanto que a presença daqueles
pastores lhe dava. 10 de Dezembro de 1988 |